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Os profissionais da saúde que cursaram graduação nas décadas de 70 e 80, provavelmente tiveram em seus currículos uma expressiva carga horária de ensino sobre desnutrição infantil. Naquela época o país convivia com altas taxas de mortalidade por doenças infecciosas e parasitárias e a desnutrição atingia grande parte das crianças.
Ao longo dos anos, o estudo da desnutrição cedeu lugar nos currículos escolares ao sobrepeso e à obesidade, que atualmente afeta cerca de 20% dos adultos , além de jovens e crianças. Entre menores de cinco anos atendidos em serviços de Atenção Primária, a prevalência do sobrepeso se aproximou dos 15%, e de obesidade, em torno de 7%. O que não significa ter saúde. Ambas as condições podem advir da má nutrição e estão associadas com as doenças crônicas não transmissíveis.
A pandemia de Covid-19, por motivos diversos, piorou ainda mais este cenário, fazendo crescer tanto o excesso de peso quanto a fome, colocando 13% da população em situação de insegurança alimentar, o equivalente a 21 milhões de brasileiros, segundo Relatório do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef). O dado indica que ao menos uma pessoa no domicílio pesquisado havia deixado de comer por
falta de dinheiro para aquisição de alimentos.
A insegurança alimentar atinge pessoas do estrato social mais vulnerável de duas formas
simultaneamente perversas: por consumirem quantidades menores de alimentos que necessitam e por ingerirem alimentos de baixo teor nutricional, pois em geral, alimentos mais baratos e de preparo mais fácil são também os que possuem mais carboidrato pobre, menos fibra e baixo teor de micronutrientes necessários ao desenvolvimento e à manutenção da saúde.
Como consequência, observa-se o crescimento de um fenômeno definido pela OMS como Double Burdes of Malnutrition – DBM, traduzido para o português como Carga Dupla de Má Nutrição (CDMN), caracterizada pela coexistência em um mesmo indivíduo, família ou população, da obesidade e da desnutrição.
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Dito com outras palavras, a CDMN é a manifestação simultânea de desnutrição (deficiências de micronutrientes, baixo peso e baixa estatura) e de excesso de peso. Ambos potenciais propagadores de efeitos a longo prazo, especialmente quando ocorrem na infância.
A má nutrição, entretanto, não acomete somente a população de baixa renda, embora este seja o segmento atingido de maneira mais severa. Afeta pessoas de outras camadas sociais cujos hábitos alimentares e rotina de vida levam ao consumo excessivo de alimentos ultra processados, devido à falta de informação e/ou hábito. Estudo recente mostra que a probabilidade de CDMN é maior nos lares mais ricos de países de baixa ou média renda, e nos domicílios mais pobres dos países ricos.
Sobrepeso/obesidade e a desnutrição são faces distintas de um mesmo fenômeno – a má nutrição, e deve ser enfrentado com políticas públicas e ações efetivas de combate à pobreza, acesso à educação e saúde. É multifatorial e requer abordagem igualmente ampla, realizada por profissionais capacitados a agir com conhecimento e de forma articulada com organizações da sociedade civil, buscando os melhores resultados. O “cuidado com adultos obesos na Atenção Básica” oferece subsídios teórico-metodológicos e estratégias especificamente voltadas ao enfrentamento desse duplo desafio.
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